Textos Curatoriais

Iniciamos nossa apresentação esclarecendo que, no divisor de águas do chamado Abstracionismo, Carparelli pode ser enquadrada no segmento Lírico. Sua produção, impelida por impulsos íntimos, pauta-se em expressões de seu inconsciente e sua intuição, havendo inegável produção ancorada em formas orgânicas que nos remete, na grande maioria das vezes, a pormenores de cenas e imaginário marinho ou lacustre, a despeito de qualquer narração.

Seu espectador, nos mais da vezes, surpreende-se imaginando aquilo que vemos à beira d’água, seja do mar ou às margens de um lago. As transparências, fluidez. Tal qual uma pequena depressão na superfície do solo que retém água, onde podemos encontrar fragmentos de plantas ao lado de detritos de conchas e outras texturas análogas. Um olhar ampliado desse microcosmo, onde as formas, já diluídas, abandonam a incumbência narrativa.

Feito este primeiro enquadramento básico, reportamo-nos aos primeiros esforços comparativos. Uma vez integrante do chamado Abstracionismo Informal, muitos poderiam, desde logo, imaginar algum ponto de tangência com Jackson Pollock, icônico pintor do chamado movimento Abstracionismo Expressionista. Não obstante, a técnica de Pollock consistia em derramar tinta sobre superfícies horizontais, onde havia frenética atuação de modo quase performático, obrigando-o a aproximar-se e, em ato contínuo, afastar-se da tela, buscando ângulos de visualização, com resultados próximos ao randômico. Embora haja fluência na criação, do outro lado do espectro, está a obra de Carparelli, resultante de movimentos lentos e pacíficos, com imaginária ligada a “necessidade interior” de paz, do efeito apaziguador do reencontro com o natural. Abstracionismo informal sim, porém não vibrante e que acalma o olhar do espectador. 

Nesta altura da apresentação, o leitor já tem ciência que se deparará com abstração lírica, informal porém não expressionista, olhar apaziguador que nos remete ao imaginário marinho, com pormenores e ângulos de fluidez ribeirinha, sejas das margens ou de pequenas depressões a beira mar.   

Debrucemo-nos, pois, nas harmonias cromáticas, na denominada paleta de Carparelli. Talvez aqui o aspecto mais exótico para um espectador europeu, acostumado à luz e as nuances da natureza temperada do velho continente. Carparelli vive no mais tropical dos mudos, em terras brasileiras, cercada não só de natureza, mas submetida à insolação típica desta região do globo. Sua paleta é, muitas vezes, resultante a radiação que incide sobre as florestas, plantas e flores, sobre a superfície do solo ou mesmo sobre as águas, totalmente livres de nuvens ou nevoeiros, sem os filtros europeus que rebaixam os tons. De algumas telas, especialmente nas pequenas, pode-se depreender o calor intenso e a exposição ao sol e altas temperaturas. Carparelli pode flertar com o Fauvismo, posto que chega a empregar cores puras, sem misturá-las, sem matizá-las. Em seus pequenos formatos, utiliza cores intensas, remetendo-nos aos pormenores de plantas tropicais, colocando em suas telas seu próprio estado de espírito e seus impulsos interiores. Tais sensações são transmitidas, com grande competência, ao espectador, de modo totalmente livre e despido de vibrações perturbadoras ou deprimentes. Note-se que há pouca gradação entre os matizes. Há excesso de impulsividade e de experimentação, sem emprego de ensaios ou estudos prévios. A paleta de Carparelli aceita comparativos com as primeiras aquarelas de André Derain; de Jean Puy e seus tons de azuis esverdeados; de alguns trabalhos de Vlaminck. Esforço comparativo que se faz aqui, tão somente no que diz respeito a paleta, não aos temas.

Feitas considerações quanto ao enquadramento conceitual, análise comparativa, reflexões quanto a paleta e harmonias cromáticas;  compete-nos, agora, digressões adicionais quanto à forma explorada pela artista. Pode-se dizer que haja uma visão quase sintética da natureza. Cumprindo-nos destacar a cabal ausência de tridimensionalidade. As sensações visuais, impulsivas de Carparelli, libertam-na de qualquer vínculo com a narração da realidade e do naturalismo propriamente dito. Sensação oriunda do natural, mas rompendo com a tridimensionalidade. A artista busca compensação desse viés em sua produção de objetos de vidro. Um contraponto a pintura. Não obstante as formas trabalhadas também remeterem ao imaginário marinho ou lacustre, empregando formatos orgânicos, de moluscos e afins, com a transparência das águas no vidro utilizado. Há aqui harmonias típicas da vida marinha (de cascas de mexilhões no cobre), em contraste com tons de verde e azul – viajem através dos mares Adriático; de Mármara e do Egeu. Fluidez em superfícies celeste, turquesa ou até cobalto. Imaginário idêntico, técnicas opostas. Telas orgânicas bidimensionais em oposição aos objetos, também orgânicos, de vidro trabalhados com metais que, instantaneamente, transportam-nos do Ártico à Grécia.

Nesta mesma linha de ideias, compre destacar a liberdade de preenchimento da superfície do suporte. Muitas vezes, com especial ênfase em suas telas de maior tamanho, Carparelli deixa espaços não preenchidos, ao sabor das primeiras aquarelas de Wolfgang Paalen. Por uma lado, o austríaco fazia referência à vegetação e a longínquas paisagens já desfocadas, quase como um espectador que, do alto de uma montanha, afastasse as folhagens e plantas ao seu redor, para conseguir visualizar um vale, bem mais baixo e ao longe. Apenas insinuação, sem narração explicita. O imaginário de ambos parece prover da natureza. Porém, prende-nos de modo misterioso mais do que a realidade da experiência no natural. Há mais mistério nas pinturas que no próprio mundo real. Podemos dizer que, no que tange à composição, Carparelli esteja conectada ao abstracionismo de Kandinsky, com suas cores puras e pinceladas rápidas, induzindo algo existente no mundo real, sem contudo permitir conexão direta com nada de modo específico.

Como tudo que aqui já se disse, pode-se concluir que os trabalhos de Carparelli não focam na racionalização, independem por completo de análise intelectual para que haja fruição. Tampouco recorrem a linhas ou traços, com total abandono da perspectiva tradicional. Não há grandes tensões ou quaisquer pinceladas violentas, com o emprego de textura única e fluida. Tudo isso com absoluta priorização da intuição, sem emprego de quaisquer estudos prévios. Liberdade criativa pautada no aspecto sentimental-emocional, de certo modo endividada com o efeito terapêutico das harmonias cromáticas da natureza, em especial com a paleta e imaginário das marinhas. Ganha tridimensionalidade, como já dissemos, tão somente em seus objetos de vidro combinados com metais, mas mantendo fluidez, leque cromático e meras associações com elementos da natureza.

Por fim, cumpre esclarecer que seus trabalhos refletem de modo cristalino a quietude de seu aspecto pessoal. Mesmo quando recorre a cores tipicamente tropicais, baixa vibração, provocando-nos a sensação de se vislumbrar um pormenor de flora paradisíaca, como quem pega nas mãos uma pequena muda no jardim do Éden. Pintura menos volumosa, fluida nos planos, com clara aspiração para serenidade, deixando-nos um suave gosto de eternidade.

Pedro Mastrobuono

Presidente do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM)

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